Tenho observado um movimento cada vez mais presente, sobre trabalho, criatividade e estratégia. Fala-se de repertório, carreiras não lineares, pensamento interdisciplinar, conexões improváveis. Um modo de olhar que amplia possibilidades em vez de reduzir pessoas a um cargo ou rótulo profissional.
Enquanto vejo esse trem/trend passar, me lembro de uma roda de conversa de que participei no SuperLab Sessions, com o tema “O poder de realização de mentes criativas”, a convite da SuperUber, em 2015, antes de me tornar colaboradora como diretora de arte.
Naquela época, estava envolvida em um projeto em local afastado, levava horas de deslocamento e tinha poucas noites para preparar a apresentação. Talvez por isso – mas não somente por isso –, optei por um exercício de síntese, com conteúdo mais depurado e visual minimalista. Foi curioso perceber que havia uma expectativa de que eu, sendo quem sou, apresentasse algum tratamento visual diferenciado.
E foi ali que, muito intuitivamente, desenhei o que chamei de Universo das Competências. O esquemático que gerei não se referia a profissões ou currículos, mas a um cruzamento entre o que somos como pessoas e o que nos tornamos profissionalmente. Uma tentativa de visualizar o que já percebia na prática: nossas aptidões e potências não existem isoladamente. Elas se relacionam, se contaminam e cruzam contextos, formando terceiras, quartas e quintas combinações. E, quando conseguimos enxergar essas conexões, ampliamos nossa capacidade de imaginar novos territórios de atuação.
A pergunta era e continua sendo: o que mais eu poderia fazer com o que me faz ser designer?
Algumas leituras só são feitas em retrospectiva. Hoje vejo que naquele visual quase wireframe havia mais do que um recurso de apresentação, havia o indício de uma intuição que colocava o pensamento como protagonista.
De 2015 pra cá vieram novos projetos, o mestrado, novas perguntas. E a percepção, cada vez mais nítida, de que o pessoal e o profissional nunca foram compartimentos separados, mas territórios de fronteiras porosas.
É nesse sentido que reconheço uma espécie de genealogia: uma linha de pensamento que atravessa diferentes momentos da minha trajetória e que continua presente no modo como me compreendo e como desenvolvo meu trabalho. Ler contextos, estabelecer relações, organizar pensamento e orientar ação são movimentos que já estavam, de alguma forma, naquele primeiro desenho.
O que começou como uma maneira de pensar sobre pessoas e suas possibilidades de atuação encontrou aplicação também nas marcas. A mesma lógica de cruzamentos, relações e contextos se transformou, ganhou corpo e método, até se tornar a metodologia que orienta o que faço hoje.
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